Bicicletas e o sinal vermelho

Um dos problemas decorrentes de décadas de prevalência de carros particulares sobre os outros meios de transporte é a crença de que todos os usuários das ruas são iguais e equivalem-se em direitos e deveres.

Segundo essa ideia, ciclistas e pedestres precisam respeitar as leis de trânsito no mesmo nível exigido de motoristas.

Não é preciso ser Isaac Newton para saber que um caminhão a 100km/h tem um potencial destrutivo maior que uma motocicleta à mesma velocidade. Ou que um carro cruzando um sinal vermelho representa um risco muito maior do que uma bicicleta fazendo o mesmo. Ou ainda que um condutor de ônibus desatento é dramaticamente mais perigoso que um pedestre desatento.

Pessoas que se opõem ao uso de bicicletas como meio de transporte têm como um dos principais argumentos o “fato” de que “ciclistas não param no sinal vermelho” para vilificar o transporte de duas rodas. Mas mesmo que você fique preso em um congestionamento chinês, você não vai ouvir dessas pessoas uma reprimenda dirigida a todos os motoristas porque alguns deles param em fila dupla ou excedem os limites de velocidade.

A essa altura é importante ressaltar que esse site defende que todas as pessoas cumpram as normas e regras vigentes de trânsito, independente do veículo de escolha – a começar pelos motorizados. Mas enquanto isso, gostaríamos que houvesse uma reformulação no código de trânsito de modo a acomodar segurança, eficiência e praticidade no dia a dia das cidades.

É em função da inerente inabilidade de veículos automotores de navegar de modo eficiente em estruturas urbanas que se faz necessário o uso de um sistema de sinais que libere o fluxo de uma via enquanto temporariamente impede em outra. Substitua carros particulares por bicicletas, pedestres e transporte coletivo e o número de sinaleiras urbanas cairá drasticamente.

Mas enquanto esse dia não vem, não faz sentido forçar aos ciclistas as mesmas regras que regem o uso de outros veiculos. Da mesma forma que motoristas dirigindo no meio da noite se aproximam de sinais vermelhos com cautela (assim espera-se) e tentam não parar, justificando preocupação com assaltos, aos ciclistas deveria ser permitido tratar o sinal vermelho como amarelo piscante, dando preferência para todo veículo na via transversal, e seguindo adiante assim que seguro.

Ninguém na rua tem mais motivos para se aproximar de um cruzamento com extremo cuidado do que os ciclistas, tão expostos e vulneráveis que são. E a natureza de seus veiculos permite que o resultado não seja o caos.

Na verdade, existem lugares onde esse comportamento é legalizado. Desde 2012, ciclistas parisienses podem fazer conversões à direita sem obrigatoriamente ter que parar no sinal vermelho. Nos EUA, desde os anos 1980, o estado de Idaho permitem que ciclistas tratem sinais vermelhos como sinais de pare e sinais de pare como cruzamentos sobre vias preferenciais. A prática, conhecida como Idaho Stop, passou a vigorar depois que um juiz local considerou ter coisas mais importantes para fazer do que punir ciclistas por cruzar sinais vermelhos.

Mas por que mudar as regras e aceitar que uma categoria de usuários da rua posssa fazer o que outra não pode? Simples, para melhorar o fluxo para todos. Prefeituras de certas cidades limitam a passagem de caminhões por seus centros urbanos para preservar a segurança e a qualidade de suas ruas. Rodovias tem distintos limites de para diferentes veiculos, bicicletas não são permitidas em certas rodovias. Ou seja, regras diferentes não são exatamente uma novidade.

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