As duas lendas de Dunwich

Existe algo de mágico no oceano. É o lugar onde grandes coisas começam e terminam. Onde, mesmo sem querer, você é capaz surpreender-se parado com o olhar fixo no horizonte, em um estado de semi-hipnose estupefata diante de uma grandeza intransponível. O que há além? O que se esconde debaixo de suas ondas?

Existe algo de mágico no Dunwich Dynamo, evento anual que reúne milhares de pessoas em uma viagem de bicicleta noite a dentro, de Londres até a cidade perdida de Dunwich, na costa leste inglesa.

Hoje os habitantes de Dunwich se contam em poucas centenas, mas esse já foi um importante porto marítimo britânico, rivalizando em tamanho com Londres. Nos séculos XIII e XIV, porém, uma série de temporais destruiram o porto, fazendo com o que o Mar do Norte engolfasse a cidade, transformando-a na Atlântida das ilhas britânicas.

Bem mais recente é o Dunwich Dynamo, que por 25 anos acontece no Sábado mais próximo da primeira lua cheia do verão setentrional. A lua serve para iluminar o caminho e a proximidade do início do verão para garatir uma noite curta e de temperatura agradável. Mas não há nada de curto no trajeto de Londres a Dunwich.

O evento não é oficialmente organizado por ninguém, o que significa dizer que cada um cuida de si e todos cuidam de todos. Isso se deve, talvez, à lenda das origens do DD. Um grupo de mensageiros reunidos no pub depois do trabalho em Londres desafiando-se mutuamente a uma pedalada até o mar.

Se é verdade ou não ninguém sabe dizer, mas o caráter anárquico desse evento de 180 quilômetros testemunha em favor da lenda. Um pneu furado, um raio quebrado, um cabo de freio arrebentado e você está a merçê de seus conhecimentos mecânicos, da boa vontade alheia e de ferramentas e peças disponíveis à beira da estrada. Caso o seu corpo não aguentar, você vai ter que dar um jeito de seguir adiante até a próxima estação de trem ou voltar para casa de alguma outra maneira.

Entre os participantes, há de tudo um pouco. Gente que encara o DD como uma corrida, com suas bicicletas de carbono, isotônicos, de olho no computador de bordo, chegando à praia provavelmente antes do sol nascer; pessoas que usam bicicletas de geometria mais relaxada e passeiam, sem pressa para chegar; gente que opta por veículos não-convencionais – já houve quem completasse o percurso em uma BMX de rodas de 20 polegadas, e todos os anos há quem use uma das notoriamente pesadas e lentas bicicletas de aluguel de Londres. Além disso, dezenas de casais em tandens, jovens em roda-fixa, Bromptons aficçionados em suas, er, Bromptons. A maioria, porém, opta pela simples, eficiente e conservadora bicicletas de estrada com múltiplas marchas.

Para mim, estreante no Dun Run na edição de 2017, os 180 quilômetros demandaram uma noite inteira de viagem, quase 12 horas entre partida e chegada e mudanças radicais de estado anímico. Do senso de pertencimento na saída em Hackney ao relaxamento da missão cumprida na beira da praia, passa-se por tantas variações psíquicas quanto de cenário.

Há o pôr do sol nos arrebaldes de Londres; a lua cheia surgindo por entre as árvores na floresta de Epping; a imensidão de luzes vermelhas piscantes na escuridão, guiando as pessoas pelas estradas em campo aberto; os moradores locais alinhados nas calçadas dos vilarejos, batendo palmas e incentivando o pelotão; os pubs abertos à noite para frequentes paradas com cervejas e sanduíches de bacon; bêbados encerrando sua noite com piadas; a escuridão quase completa do meio da madrugada (a lua cheia perdeu para a noite nublada em 2017); os clubes de ciclismo ultrapassando a todos em velocidades estonteantes, como se todo o resto dos participantes estivesse em triciclos de pneus murchos; o sol trazendo novas cores ao céu pela manhã; os clubes de ciclismo voltando a Londres em um desafiador Dunwich Duplo, enquanto você ainda se pergunta se vai conseguir chegar até a praia como os simples mortais.

Conforme a praia se aproxima, os sorrisos e as conversas vão escasseando e o clima de Carnaval vai dando espaço ao cansaço e ao sono. Você começa a ver mais e mais grupos deitados na beira da estrada, 15, 20 minutos para reunir forças para os quilômetros derradeiros. Mais e mais pessoas empurrando suas bicicletas em subidas. É preciso lembrar que muitos dos que completam o percurso nunca andaram mais que 30, 40 quilômetros de uma vez. O meu percurso mais longo até então havia sido 80 quilômetros em 2015, por exemplo. Minha única preparação para o DD foi o meu desolcamento diário para o trabalho. Em média 100 quilômetros por semana, espalhados em 5 dias. Além disso, fiz um percurso de 120 quilômetros duas semanas antes do evento, quando eu descobri (a tempo!) que um par de shorts estofados é fundamental quando as quilometragens se elevam para as centenas.

A grande questão que passa pela cabeça de quem vê de fora é: por quê? O que leva um monte de gente a sair de casa num sábado de noite de verão com tempo bom e pedalar noite a dentro? A resposta fica clara na praia de Dunwich, em frente às ruínas do porto solapado pelo Mar do Norte. Com milhares de pessoas extenuadas, deitadas nas praia de pedras ao lado de suas bicicletas igualmente abatidas. Uma cidade perdida, duas lendas e uma noite eternizada: não poderia haver destino mais apropriado para noite mais memorável.

 

 

 

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